Importação de bens de capital recua 10,3%

No acumulado do ano até maio, a produção de bens de capital medida pelo IBGE teve queda de 5,8%.

Os dados do primeiro semestre do comércio exterior reforçam os sinais de queda da confiança e do investimento na economia brasileira. Levantamento da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), que será divulgado nesta quarta-feira (23), mostra que o Brasil importou, em volume, 10,3% menos bens de capital em relação ao primeiro semestre de 2013. Ao mesmo tempo, uma parcela menor da produção foi absorvida pela atividade doméstica.

No acumulado do ano até maio, a produção de bens de capital medida pelo IBGE teve queda de 5,8%, enquanto os dados de exportação de bens de capital fornecidos pela Funcex até junho apontam para aumento de 4,2% do volume embarcado ao exterior.

A conta da exportação, entretanto, exclui o efeito das plataformas de petróleo embarcadas de maneira contábil no primeiro semestre de 2013. Com elas na base de comparação, as vendas totais de bens de capital recuaram 23,3%, deprimindo a exportação de manufaturados, que caiu 10,1%.

Daiane Santos, economista da Funcex, chama a atenção para o recuo de 15,2% nas importações de máquinas e equipamentos de uso industrial e a queda de 6,2% no volume desembarcado de máquinas e equipamentos de uso geral no primeiro semestre. As duas subcategorias representam 37% do total importado de bens de capital. "Esses dados de redução da importação vão ao encontro da conjuntura da indústria neste ano, que está com a atividade fraca e com confiança em queda", afirma Daiane.

A Funcex também registrou recuo nas importações de bens duráveis (8,6%), não duráveis (4,5%) e de combustíveis (5,8%). Com isso, o volume total dos desembarques caiu 1,8%. O primeiro setor, de duráveis, foi afetado pela fragilidade da economia argentina, que comprou menos automóveis brasileiros na primeira metade do ano. Para produzir esses carros exportados à Argentina, a indústria automobilística utiliza partes e peças prontas fabricadas no país vizinho. Já o recuo em bens não duráveis foi causado pelo esfriamento do consumo interno do país.


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Os dados industriais apontam para uma retração da produção de bens de capital neste ano como um todo, de acordo com Daiane. "A primeira metade do ano mostra que esse quadro de desaceleração da economia puxada por uma indústria com maus resultados está se concretizando", diz.

Se a atividade industrial está com números desanimadores neste ano, a exportação de bens primários e de combustíveis puxou o resultado do comércio exterior. O volume de embarques ao exterior de produtos básicos cresceu 11,2%, enquanto o de combustíveis aumentou 21%. A recuperação da segunda categoria de uso se deve, de acordo com Rodrigo Branco, economista e pesquisador da UFRJ, ao aumento da produção de petróleo pela Petrobras e à base fraca de comparação na primeira metade do ano passado, quando a estatal paralisou a produção em poços maduros para a manutenção de algumas plataformas.

O resultado dos produtos básicos já era esperado. A safra recorde de soja, o aumento da produção de petróleo e de minério de ferro contribuíram para o incremento do quantum exportado. Em contraste com as classes de produtos exportadas, o primeiro semestre aponta para intensificação do processo de primarização pelo qual passa o comércio exterior brasileiro, na visão de Branco. "Quando se olha o desempenho dos manufaturados, o quadro é outro", afirma.

O economista se refere à queda de 3,1% no volume exportado de semimanufaturados e ao recuo de 10,1% em manufaturados, levando em conta as plataformas de petróleo na base de comparação do ano passado. Sem o efeito delas, o recuo na manufatura foi de 5,6%, apesar do incremento do volume de exportações observado em bens de capital.

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M Jorge Consultores Associados, há forte pressão interna de aumento de custos na economia brasileira, que está afetando a demanda interna - com reflexos consequência na produção e importação de bens de capital - e a manutenção e conquista de novos mercados no exterior. A desvalorização de 11% do real frente ao dólar de agosto do ano passado a junho deste ano não serviu para o recuo dos preços aos clientes no exterior, segundo os especialistas, impedindo uma melhora da competitividade e ampliação da presença em mercados já consolidados.

No índice calculado pela Funcex, na primeira metade do ano, os preços dos manufaturados exportados caíram apenas 0,9% em relação aos preços no mesmo período do ano passado. "O preço é um sinal importante. A indústria só consegue diminuir preço, se os custos de produção também baixarem. A desvalorização serviu mais para segurar aumento de custos internos do que na conquista de novos mercados", afirma Barral.

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