Salários crescem menos e reduzem custo de substituição de mão de obra

O esfriamento das contratações de empregados com carteira assinada desde o fim do ano passado começa a ter reflexos negativos sobre o ritmo de avanço da renda. No segundo trimestre, o salário médio real dos admitidos no mercado formal foi 1,2% maior do que aquele pago aos contratados no mesmo período do ano passado, metade do avanço observado entre janeiro e março deste ano, de 2,4%, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) deflacionados pela LCA Consultores.

Com a redução do ritmo de crescimento dos salários de admissão, a diferença de remuneração em relação aos demitidos aumentou no período, o que para economistas mostra um mercado de trabalho menos apertado, em que as empresas têm mais facilidade para substituir mão de obra mais cara por mais barata e o poder de barganha do trabalhador por salários mais altos cai.

Para Fabio Romão, da LCA, os ganhos reais estão mais difíceis em parte por causa da inflação mais alta. "O poder de barganha dos trabalhadores também diminui com o crescimento bem menor da ocupação". De janeiro a junho, as admissões retraíram 1,4% em relação a igual período do ano passado. O saldo de geração de vagas formais em junho, de 23,4 mil, ficou distante em quase cem mil postos do registrado no mesmo mês de 2013. Assim, quem começa em um novo emprego neste momento tem recebido salários um pouco mais baixos do que era possível conseguir no ano passado para garantir uma ocupação, avalia.

No setor de serviços, essa flexibilidade parece ser maior, já que este é um segmento em que há menor exigência de qualificação. Em termos nominais, os salários de admissão nesse ramo subiram 6,5% no segundo trimestre, em relação a igual período do ano anterior, alta semelhante à inflação do período, de 6,52%, de acordo com o IPCA acumulado em 12 meses. Já na indústria, ainda parece ser mais difícil negociar com os novos empregados, afirma Romão. "O trabalhador que já tem algum tipo de treinamento consegue pleitear um salário inicial mais alto". Neste segmento, os salários subiram 7,9% no mesmo período.


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"Em um cenário de desaquecimento da atividade e menor geração de empregos, as pessoas passam a aceitar novos postos com salários não tão maiores e eventualmente até se prendem menos a questões salariais", concorda João Saboia, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Saboia avalia que os empresários podem aproveitar para reduzir custos com a substituição de mão de obra mais cara por mais barata. Por enquanto, no entanto, não há sinais de que os empregadores estejam demitindo para isso, e sim procurando barganhar mais quando algum trabalhador se desliga voluntariamente, por exemplo.

Hélio Zylberstajn, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), chama atenção para os salários de primeiro emprego, que têm registrado uma desaceleração maior do que a média. A menor geração de vagas em segmentos que exigem maior qualificação seria um dos fatores a explicara essa dinâmica, além da tendência "geral" de redução do aumento dos salários, pela atividade mais fraca. Ele diz que ainda não há indicativo de um processo deliberado de substituição de mão de obra por parte das empresas.

Para Rodrigo Leandro de Moura, do Ibre/FGV, o crescimento menor dos salários dos novos empregados pode estar sendo influenciado por uma reorganização nas formas de remuneração. Segundo o economista, em períodos de crise muitas empresas costumam contratar como pessoa jurídica profissionais com salários mais altos - que não apareceriam, portanto, nas estatísticas do Caged, que só contabilizam o emprego com carteira assinada. Em períodos de avanço menor da economia, completa, aumenta ainda o número de trabalhadores por conta própria, também fora do cadastro do Ministério do Trabalho.

De outro lado, o aumento mais intenso da remuneração de quem se desliga da empresa seria consequência do maior tempo de permanência do trabalhador no mesmo emprego, tendência apontada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE.

Saboia, da UFRJ, afirma que ainda é cedo para dizer que há uma piora do mercado de trabalho neste momento. "Os sinais parecem sugerir mais estabilidade das condições do que uma piora efetiva".

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