Indústria vai ao BNDES para fugir do corte

Fabricantes de máquinas querem garantir que corte de R$ 40 milhões não prejudique investimentos.

Fabricantes de máquinas e equipamentos estão em negociação direta com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para garantir que o corte de R$ 40 bilhões nos novos financiamentos do banco, em 2014, não prejudiquem os investimentos. “Técnicos do BNDES não saem da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) e os da Abimaq, do BNDES”, afirmou o diretor da Associação, Alberto Machado. A expectativa da indústria de bens de capital é de que o governo adote um critério seletivo no corte do financiamento, que privilegie o espalhamento do crédito por diferentes projetos, em vez de concentrá-lo em um número restrito de grandes empreendimentos.
 
O cenário, por enquanto, é de incerteza e expectativa por parte do setor produtivo. Nem mesmo os funcionários do banco têm uma visão clara de como ocorrerá o corte anunciado pelo Ministro da Fazenda, Guido Mantega. É de conhecimento de todos o montante do ajuste no desembolso, que passará de R$ 190 bilhões, em 2013, para R$ 150 bilhões, em 2014, com o objetivo de evitar a necessidade de novos aportes do Tesouro Nacional. Mas o desenho das mudanças nos programas de crédito e os setores que serão prioritários no acesso aos recursos estão sendo definidos exclusivamente no Ministério da Fazenda, em diálogo com o presidente do banco, Luciano Coutinho.
 
De certo, sabe-se que estados e municípios serão os primeiros afetados. Parte do corte virá do programa de financiamento Proinveste, com orçamento de R$ 20 bilhões, destinado a estados e municípios, que será extinto no ano que vem. Do orçamento total do programa, R$ 11 bilhões saem do caixa do BNDES e o restante, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil. Em 2013, foram desembolsados R$ 4,2 bilhões no Proinveste. No Rio de Janeiro, a Secretaria de Estado de Fazenda informou que aguarda definições sobre o corte para se posicionar sobre alternativas de financiamento.
 
Estados e municípios, na verdade, já foram avisados por Mantega de que o BNDES irá reduzir o financiamento. “Menos estados vão bater à porta do BNDES para pedir recursos. Isso significa que, se os estados quiserem obter financiamentos, poderão fazê-lo com os bancos privados ou com os demais bancos públicos”, comentou Mantega, ao sair de uma reunião em São Paulo com Coutinho, ainda em outubro. Na última segunda-feira, durante seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), também o ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda Nelson Barbosa afirmou que “os estados e municípios são os candidatos naturais ao corte de financiamento”.
 
A estratégia é liberar o máximo possível de recursos a projetos de infraestrutura, considerados “prioridade zero” para os próximos anos, diante das concessões do Programa de Investimentos em Logística do governo federal.Para a especialista em Desenvolvimento Econômico e Economia Industrial da FGV-SP Laura Barbosa de Carvalho, o governo irá manter o crédito para o investimento, com a manutenção do programa PSI Finame. Esta tem sido a linha mais acessada do banco desde o início da crise econômica internacional, em 2008, por causa das suas condições especiais, em comparação a outras linhas do banco e de instituições privadas. O programa é destinado à produção e aquisição de máquinas e equipamentos novos, de fabricação nacional.
 
O Plano de Sustentação do Investimento (PSI) vence no final do ano e a expectativa é que seja renovado, mas com juros mais altos. A aposta da economista da FGV-SP é na redução do crédito para capital de giro e manutenção dos financiamentos para investimento e às exportações. Entre os fabricantes de máquinas e equipamentos, o receio é que projetos vultosos roubem recursos destinados à ampliação e modernização da indústria. O setor petróleo, que exige grandes investimentos, é um potencial candidato a receber uma fatia expressiva do orçamento do BNDES. A preocupação é mais com a destinação de recursos para a instalação de novas refinarias para o processamento do petróleo, do que com os investimentos no pré-sal.
 
Outro setor em alerta com a possibilidade de redução é o de comércio e serviços. O economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) Fábio Bentes ressalta que o somatório da desaceleração dos serviços com o encarecimento do crédito já torna, por si só, o cenário mais desafiador no próximo ano. Possíveis cortes de financiamento do BNDES serão, em sua opinião, mais um fator a desestabilizar o crescimento. “O momento não é o mais oportuno. Se for retirado o acesso a uma taxa mais baixa que a do mercado, a recuperação do setor, certamente, será prejudicada”, acrescenta Bentes.
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