Montadoras voltam a ampliar capacidade

Montadoras voltam a ampliar capacidade

Após um 2012 marcado por interrupções na produção, a indústria de caminhões voltou a viver uma fase de expansão. Só em junho, a Ford começou a produzir extrapesados em São Bernardo do Campo (SP) e a International, do grupo americano Navistar, iniciou a operação de sua nova fábrica em Canoas (RS). Por três semanas, a fábrica da Scania no ABC paulista parou recentemente para a adequação da linha a um mercado maior, no qual os caminhões do tipo pesado puxam a reação da indústria, no embalo do transporte da safra recorde de grãos. Por fim, a DAF, marca do grupo americano Paccar, está perto de iniciar a produção em Ponta Grossa, no Paraná, onde investiu cerca de US$ 200 milhões. O início das operações da linha, cuja capacidade será de 10 mil caminhões por ano, está previsto para outubro.
 
Ainda há outros projetos anunciados por montadoras chinesas que somam investimentos superiores a R$ 1 bilhão e poderão adicionar a esse setor uma capacidade anual de 46 mil caminhões nos próximos dois anos.
 
Números da Anfavea, a entidade das montadoras instaladas no país, mostram que as vendas desses veículos cresceram 9,6% até julho, puxadas por um crescimento de 37,8% nos licenciamentos de caminhões do tipo pesado. Mas a produção cresce mais porque, diferentemente do ano passado, o setor iniciou 2013 sem excesso de estoques. Nos sete primeiros meses, houve crescimento de 51% na fabricação de caminhões no Brasil.
 
Fontes da indústria e da distribuição de veículos projetam para este ano um crescimento na faixa de 7% a 12% das vendas. Embora ainda distante do recorde de quase 173 mil unidades de 2011, isso significaria retomar níveis próximos aos de 2010, quando os emplacamentos somaram 157,7 mil caminhões. Já para a produção, estima-se uma evolução de 30% a 35% neste ano.
 
Depois de sofrer com a retração da atividade industrial e sentir o reflexo da forte antecipação de compras do ano anterior - quando as transportadoras buscaram escapar do aumento de preços previsto com a chegada, em janeiro de 2012, da linha de caminhões menos poluentes -, a produção de caminhões caiu 40,5% e as vendas cederam 19,5% no ano passado.
 
O mercado só começou a se reerguer quando o governo cortou agressivamente os juros cobrados nos financiamentos para bens de capital do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A taxa chegou a ceder de 10% para 2,5% ao ano e agora está em 4%, ainda abaixo da inflação. Junto com as compras públicas de caminhões, essa medida permitiu a recuperação das vendas a partir do quarto trimestre de 2012. "O resultado do setor de bens de capital teria sido próximo de zero se não houvesse esse estímulo", diz Alcides Braga, presidente da Anfir, a entidade que representa os fabricantes de implementos rodoviários, que equipam os caminhões.
 
Por isso, a indústria já se movimenta para cobrar do governo a manutenção dos juros competitivos, cujo fim está previsto para dezembro. Em Brasília, as negociações acontecem tanto nos ministérios da Fazenda e de Desenvolvimento. Resta saber se o governo, apertado pelos compromissos de cortes no orçamento, ainda está disposto a continuar subsidiando com recursos do Tesouro a recuperação do mercado de veículos comerciais. Braga diz que o assunto voltou a ser discutido com o BNDES em uma reunião realizada há quinze dias. "Eles estão receptivos, mas ainda é preciso combinar com a Fazenda", afirma o executivo.
 
Marco Saltini, que é diretor de relações governamentais da MAN, além de vice-presidente da Anfavea, diz que a renovação do Programa de Sustentação dos Investimentos (PSI), onde estão inseridos os incentivos aos caminhões, está na agenda estratégica do governo. Segundo ele, a retomada brusca dos juros de 10% ao ano significaria um "choque" para o setor. "Seria uma loucura e geraria vendas artificiais no fim do ano", diz o executivo, ao lembrar que, nesse caso, as transportadoras poderão, novamente, antecipar compras para aproveitar a última chance de comprar os veículos com juros mais baixos.
 
Por Eduardo Laguna/ Valor Econômico



Comentários