Guaíba e três cidades paulistas disputam fábrica da chinesa Foton

Os investimentos são estimados em R$ 250 milhões para uma linha com capacidade de produção de 21 mil veículos por ano.

Guaíba, no Rio Grande do Sul, e outras três cidades em São Paulo são cotadas a receber a primeira fábrica da montadora de caminhões chinesa Foton no país. A decisão será tomada até o fim do mês, conforme promete a representante da marca no Brasil, a Foton Aumark, empresa de Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Os municípios paulistas avaliados não são revelados porque as negociações ainda estão em curso, mas o vice-presidente da Aumark, Orlando Merluzzi, adianta que no Rio Grande do Sul apenas Guaíba está no páreo. A probabilidade de levar o empreendimento ao Estado de São Paulo ou para o município da Grande Porto Alegre, porém, é de 50% para cada lado, afirma o executivo.
 
O objetivo é iniciar o projeto o quanto antes para aproveitar as vantagens tributárias concedidas pelo novo regime automotivo a montadoras que investem no Brasil, como a possibilidade de importar veículos - dentro de uma cota equivalente a 25% da futura capacidade produtiva - sem a sobretaxa de 30 pontos percentuais do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) durante a construção da fábrica. "Não tem mais como empurrar esse projeto", diz Merluzzi. "Vamos, sem dúvida, decidir até o fim deste mês [a localização]", acrescenta.
 
Os investimentos são estimados em R$ 250 milhões para uma linha com capacidade de produção de 21 mil veículos por ano, a começar por caminhões leves e semileves. Esse mercado é dominado hoje por Mercedes-Benz, Volkswagen, Ford e Iveco. Segundo Merluzzi, a ideia é começar os trabalhos de terraplenagem em setembro e concluir as obras em dois anos.
 
A partir de 2018, a fábrica entra em nova fase de expansão, com a chegada de fornecedores de autopeças - principalmente, chineses - em seu entorno e a capacidade ampliada para cerca de 50 mil caminhões por ano.
 
Há quase dois anos, a Aumark planeja produzir caminhões da Foton no Brasil. O projeto, porém, teve que ser redimensionado com a nova política automotiva, que impôs exigências de nacionalização aos veículos fabricados no país. Se antes a ideia era meramente fazer a montagem de conjuntos enviados da China - no sistema conhecido como CKD -, o plano agora prevê uma fábrica completa, em consonância com o cronograma estabelecido pelo Inovar-Auto, como foi batizado o novo regime automotivo.
 
Além de atrelar descontos no IPI ao uso de autopeças locais, a nova política automotiva determina que as montadoras realizem um número mínimo de etapas fabris no país. No caso dos fabricantes de caminhões, começa com oito e chega a dez atividades - como pintura, estampagem e montagem - a partir de 2016.
 
Assim que tiver definido o investimento, a empresa terá que submeter o projeto à apreciação do governo para ter acesso aos benefícios previstos no Inovar-Auto. Apesar de diversas montadoras de veículos pesados terem anunciado o plano de vir ao Brasil nos últimos dois anos, apenas a DAF, que constrói uma fábrica em Ponta Grossa (PR), já habilitou seu projeto em Brasília.
 
A futura fábrica da Foton será totalmente custeada pela Aumark. O modelo de entrada da montadora - uma das maiores fabricantes de caminhões do mundo - é semelhante ao adotado pela coreana Hyundai, que autorizou um representante brasileiro - o grupo Caoa - a produzir veículos utilitários da marca em Goiás antes de decidir investir, por conta própria, numa fábrica de carros de passeio em Piracicaba, no interior paulista.
 
A taxação dos veículos importados, anunciada em setembro de 2011, e, depois, a indefinição sobre como seria a flexibilização dessa barreira a marcas que estão chegando ao país - confirmada apenas um ano depois - atrasaram o plano de produção local. Merluzzi diz que só a partir de dezembro, com o sinal verde da Foton na China, o projeto começou a "acelerar". Antes de afunilar as possibilidades em quatro cidades nos Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, o empreendimento foi negociado, sem sucesso, com Goiás, Pernambuco e Minas Gerais.
 
Paralelamente ao projeto da fábrica, a empresa trabalha no desenvolvimento de sua rede de concessionárias para ter mais de 80 lojas no país quando a linha de manufatura entrar em operação. "Não dá para abrir a fábrica sem uma rede de concessionárias montada", afirma Merluzzi.
 
Depois da queda de 40% em 2012, a produção de caminhões mostra recuperação neste ano, com um crescimento de 43,8% até abril. Com a fábrica brasileira, espera-se que a Foton alcance mais de 5% do mercado.
 
No ano passado, quando o setor foi afetado pela mudança na tecnologia dos motores - que encareceu o veículo -, pouco mais de 139 mil caminhões foram vendidos no país. Para este ano, as projeções de montadoras e revendas apontam para um crescimento de 7% a 15% desse número.
 
Por Eduardo Laguna/ Valor Econômico



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