Produção cai, mas cresce o faturamento da indústria

No setor de máquinas e equipamentos e de minerais não metálicos, a venda de estoques ajudou no faturamento maior.

A elevação de preços e a aquisição de um volume maior de bens importados ajudaram alguns setores industriais a aumentar o faturamento real, apesar da fraca produção física neste início de ano. Dos vinte principais setores da indústria de transformação, em 12 a receita real de vendas cresceu acima de 1% no primeiro trimestre, contra iguais meses do ano passado. Dentro dos doze setores, dez fizeram, no mesmo período, reajuste de preço acima da inflação ou elevaram o volume de importados, segundo dados obtidos a partir do cruzamento de pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

No primeiro caso estão a fabricação de produtos alimentícios e de produtos de madeira. No segundo, os segmentos de vestuário, calçados e produtos farmacêuticos. Em alguns casos aconteceram as duas coisas simultaneamente, como nos segmentos de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e de produtos de borracha e material plástico. Em outros setores - de máquinas e equipamentos e de minerais não metálicos -, a venda de estoques ajudou no faturamento maior.
 
Os preços e os produtos importados contribuíram de forma mais significativa para a alta nas receitas de vendas porque a produção física não acompanhou o desempenho do faturamento. O cruzamento de dados de produção, importação, preço e faturamento mostra que enquanto 12 dos 20 setores da indústria de transformação conseguiram faturamento maior, apenas sete registraram, no primeiro trimestre, elevação de produção física acima de 1%.
 
Edgard Pereira, professor do Instituto de Economia da Unicamp, destaca a elevação de preços nos segmentos de produtos de madeira (9,4%), na indústria de bebidas (10,14%) e na alimentícia (8,78%). As variações ficaram bem acima da inflação, que até março acumulou alta de 6,59% pelo IPCA. Os preços industriais considerados são os da variação do Índice de Preços ao Produtor (IPP), medido pelo IBGE, que mede a variação de preço dos bens industriais na saída da fábrica e incorpora, por isso, eventuais descontos concedidos na negociação com o varejo.
 
A elevação de preços, porém, não teve o mesmo efeito para todos. Enquanto essa alta contribuiu para um faturamento maior na indústria de alimentos e no setor de madeira, o mesmo não ocorreu em bebidas, diz Pereira, que mesmo com alta de preços significativa e crescimento de produção (alta de 0,76%), registrou recuo de 9,5% no faturamento. "É um caso claro de queda de demanda, que respondeu aos preços mais altos cortando compras". Segundo ele, isso pode ser notado no balanço de alguns fabricantes, como da Ambev. Com a alta de preços, diz o ex-secretário de política econômica, Julio Gomes de Almeida, o setor acumulou estoques que poderão afetar a produção física dos próximos meses.
 
A alta no volume importado no trimestre também teve efeito diverso entre os setores. Para alguns, as importações beneficiaram o faturamento. Analistas indicam que essa ligação entre o aumento nos volumes desembarcados e a alta de faturamento é mais clara em setores como vestuário, calçados, farmoquímicos e farmacêuticos, máquinas e aparelhos elétricos e produtos de metal, com exceção de máquinas. O setor de vestuário é considerado caso típico, com crescimento forte do faturamento (12%), das importações (9%) e dos preços (5%), mas queda na produção (7%). "Claramente é um setor que está substituindo produção por importação", diz Pereira. Esse setor, acrescenta Almeida, ainda pode ter se beneficiado das importações do segmento têxtil, cadeia imediatamente anterior, que registra alta de importações (10,7%), mas com queda de faturamento. "No setor têxtil, a importação está roubando não só produção da indústria doméstica, como também tirando faturamento."
 
Fernando Ribeiro, técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômico Aplicada (Ipea), acredita que para fabricantes de bens finais como vestuário e produtos farmacêuticos, por exemplo, nos quais o ritmo da importação está mais acelerado que o da produção industrial, os importados têm substituído a indústria doméstica. Isso acontece na margem, ou seja, na parcela de crescimento da demanda interna. "Isso aconteceu de forma forte em 2010 e 2011 e ficou estabilizado no ano passado, com o recuo das importações, mas agora volta a ganhar ritmo."
 
Ribeiro destaca que o câmbio, apesar da desvalorização do real no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período do ano passado, não foi capaz de frear essa importação. "O que se observa, historicamente, é que a importação é muito mais determinada pela atividade econômica e pelo câmbio", diz. Isso só muda, acrescenta, se houver uma variação muito grande ou abrupta do preço da moeda nacional, o que não aconteceu.
 
Em alguns setores importantes, os estoques estão fazendo diferença, como em máquinas e equipamentos. Nesse segmento, tanto a produção física quanto o volume de importação caíram muito - queda de 2% e de 0,8%, respectivamente -, mas o faturamento subiu de forma surpreendente, com alta de 14,4%. "As indústrias estão vendendo o que estocaram em períodos anteriores, mas a demanda ainda não chegou a gerar alta de produção", diz Almeida.
 
Pereira, da Unicamp, também acredita que os estoques tiveram influência. Mas, para ele, os números do setor de máquinas e equipamentos podem embutir uma boa noticia. "A redução na importação pode significar que o setor estaria recuperando um pouco a produção local." Outra hipótese, acrescenta, pode ser a venda de máquinas mais sofisticadas e, portanto, mais caras, ou seja, o fato de a demanda estar se direcionado a produtos de maior valor agregado.
 
Os sinais pouco claros da recuperação da atividade industrial, porém, não se restringem ao setor de máquinas e equipamentos. João Saboia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que, no geral, a indústria teve um pequeno crescimento real no faturamento embora com o nível de produção esteja praticamente estagnado. "O resultado é medíocre em termos agregados", diz ele. Ele destaca que o crescimento médio dos preços da indústria de transformação foi de 6,5% no período, muito próximo ao IPCA dos últimos 12 meses. Mas o que mais o impressiona, diz, é a diferença de resultados em alguns setores, com alta de faturamento entre 11% e 14% em setores como vestuário, máquinas, aparelhos e materiais elétricos e máquinas e equipamentos, enquanto a receita em "outros transportes" caiu 22%.
 
Saboia lembra ainda que existem enormes diferenças também na produção e no quantum de importados. "Há segmentos com situações extremamente diferenciadas mostrando os perigos de se falar da indústria sem especificar de que segmento se está falando".
 
Por Marta Watanabe e Flavia Lima/ Valor Econômico



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