Crise de energia afeta Agentina

Fonte: Valor OnLine - 18/06/07

No refeitório dos funcionários da fábrica da General Motors (GM) em Rosário, a 250 km de Buenos Aires, um enorme cartaz comunica a meta de economia de energia para o mês de junho e quanto já foi gasto. Veio da matriz nos Estados Unidos uma determinação para que se cumpram metas em relação a uma série de itens, entre eles melhoria de qualidade de produtos, redução dos índices de acidentes e consumo de recursos naturais, que devem ser cumpridas em todas as suas filiais, em vários países. Na unidade de Rosário, a economia de energia é destaque, e uma prioridade entre esses itens, explica um executivo da companhia.

Não é para menos. A falta de energia é hoje o grande gargalo na Argentina para as empresas e a situação piora a cada dia. A crise energética foi o tema principal da última reunião da União das Indústrias Argentinas (UIA) na semana passada, já que todos os setores de consumo intensivo (cerâmica, siderúrgicas, petroquímicas, montadoras de automóveis etc) estão sofrendo paralisação de produção por falta de eletricidade, gás e diesel, situação que se repete a cada pico de temperatura no país, seja de frio, seja de calor.

A falta de diesel para mover caminhões, tratores e máquinas agrícolas está comprometendo o plantio de grãos da safra 2007/08 nas principais regiões produtoras de soja, trigo e milho, atingindo já 210 municípios, como vem denunciando há três semanas a Federação dos Agricultores e a Sociedade Rural Argentina.

Com a economia crescendo a 8% ao ano e completando 17 trimestres consecutivos nesse ritmo, segundo último informe do governo, o consumo de eletricidade está avançando a mais de 20% anuais. Na província mais populosa e rica, Buenos Aires, que abriga a capital do país, o consumo de eletricidade este mês está 25% maior que no mesmo mês do ano passado. A chegada do frio, com recordes negativos de temperatura, está levando os sistemas de calefação, elétricos e a gás, das residências e edifícios públicos e privados, a funcionar a toda carga. Na semana passada foi a segunda vez este mês que o consumo ultrapassou a capacidade de fornecimento das distribuidoras, obrigando as autoridades a forçar um racionamento.

A palavra racionamento jamais foi dita pelas autoridades. Desde o presidente Nestor Kirchner ao seu ministro de Planejamento (responsável pela área energética) ou o da Economia, a funcionários de todos os escalões, nunca se admitiu uma crise. Ao contrário, o governo argentino age para evitar apagões (ultimamente sem muito sucesso) sem dar nenhuma declaração oficial sobre o tema, a não ser para dizer uma vez ou outra que a situação está totalmente sob controle, como fizeram recentemente o ministro da Casa Civil, Alberto Fernandez, e o secretário de Energia, Cristian Folgar.

O governo joga a culpa nas empresas. Após autuar a Petrobras e a Shell por falta de diesel, nesse fim de semana a Secretaria de Comércio do Ministério da Economia ameaçou cassar a concessão dos consórcios que constroem e administram os principais gasodutos, Norte e Sul (TGS e TGN).

Com o cobertor curto, a estratégia do governo argentino tem sido priorizar o fornecimento às residências e aos serviços essenciais (escolas, hospitais, delegacias, etc). As empresas são convocadas a cortar o consumo em momentos de pico. E, na sexta-feira, pela primeira vez foi cortado o fornecimento de gás aos postos que abastecem os táxis. Enfurecidos, os taxistas de Buenos Aires pararam o centro da cidade com seus carros, num protesto, complicando ainda mais o trânsito da véspera do fim de semana prolongado (hoje é feriado do Dia da Bandeira na Argentina). O abastecimento aos postos só foi restabelecido ontem às 13 horas.

O consumo de energia elétrica bateu em 17.500 MW (quase equivalente à oferta total de cerca de 18 mil MW) na sexta-feira, o que levou a Companhia Administradora do Mercado Atacadista Elétrico (cuja sigla é Cammesa) a ordenar que as empresas diminuíssem seu consumo em 1.200 MW entre as 18h e a 22h, supostamente para evitar um apagão generalizado.

A medida atingiu 4.810 grandes usuários, segundo a Cammesa. O jornal "La Nación" divulgou que tiveram o fornecimento cortado a petroleira Repsol, o grupo industrial Techint (tubos de aço) e a graneleira Cargill. Também empresas menores, como a fábrica de vidros Vasa, a fundição de metais Dema e os clubes de futebol Boca Juniors e River, foram contingenciados.

No caso do gás, nesse mesmo dia, as distribuidoras receberam ordem do Ministério do Planejamento para interromper o fornecimento a todas as grandes indústrias até atingir economia de 6,5 milhões de metros cúbicos no total. A Metrogas (controlada pelos grupos British Gas e Repsol), a Gas Natural Ban e a Camuzzi Gas Pampeana (de empresários locais), suspenderam o fornecimento a quase 160 empresas na província de Buenos Aires, enquanto em Rosário, a empresa Litoral Gas reduziu o fornecimento a 60 grandes fábricas.

A unidade da GM em Rosário é uma das mais importantes da companhia, porque ajuda a abastecer de automóveis os clientes em todo Mercosul. O presidente da filial, o brasileiro Felipe Rovera, revelou na quinta-feira, durante o 4º Salão Internacional de Automóveis de Buenos Aires, que em maio a fábrica teve que parar sua produção por 48 horas, deixando de montar mil automóveis, por falta de energia elétrica. Rovera disse que a empresa estava trabalhando para recuperar essa perda de produção, de forma gradual, com horas extras. Relatos idênticos foram feitos por executivos das montadoras Renault e Citröen.

A um grupo de jornalistas brasileiros que visitavam a sede de Rosário, na sexta-feira, o presidente da GM para o Mercosul, Ray Young, que estava em São Paulo, disse por teleconferência que a falta de energia na Argentina preocupa, mas que ele não acredita que vai atrapalhar os planos de expansão da GM no país. "Estamos analisando planos para reforçar o back-up de energia na fábrica, em áreas que demandam mais, como a pintura", afirmou Young. A GM Mercosul está em discussão com a matriz americana para trazer investimentos de US$ 1 bilhão, com objetivo de lançar novos modelos e ampliar a capacidade de produção.
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