Com máquinas, diminui rendimento de canaviais

A mecanização mudou o patamar de produtividade dos canaviais, provocando um declínio sistêmico de rendimento.

Uma colheitadeira de cana substitui os braços de 80 a 100 trabalhadores, dependendo da produtividade do cortador. Nos últimos cinco anos, as usinas e fornecedores de cana investiram cerca de R$ 14 bilhões para alavancar a substituição do homem pela máquina, mas, até agora, o resultado não agradou.

A razão é que a mecanização mudou o patamar de produtividade dos canaviais, provocando um declínio sistêmico de rendimento. Produtores com décadas de experiência no setor estão tendo que "reaprender" o manejo da cultura. E, quatro anos depois, o setor está apenas no meio de uma reação, afirma João Guilherme Iglézias, diretor de operações agrícolas da Agroterenas.
 
A empresa é uma sexagenária em produção cana-de-açúcar e uma das maiores fornecedores da matéria-prima para usinas do país, com 70 mil hectares cultivados. Iglézias conta que a produtividade nos últimos três a quatro anos caiu de 85 toneladas por hectare para 70, sendo que de 8 a 10 toneladas da perda é diretamente atribuída à mecanização. O restante foi efeito do clima. "Tivemos que esquecer tudo o que sabíamos sobre cana e reescrever os manuais de manejo".
 
Só agora, detalha o executivo, começam a surgir variedades de cana mais adaptadas às máquinas - plantas que "ficam mais em pé" e brotam melhor sob a palha, por exemplo. O setor testa ainda técnicas para mitigar a compactação do solo e reduzir o volume de impurezas trazido pela colheitadeira para dentro da usina. A falta de mão de obra qualificada para operar as máquinas também é um gargalo.
 
No ciclo 2013/14, que acabou de começar, a empresa espera produzir 75 toneladas por hectare, ainda distante das 85 do passado. Iglézias espera retomar os níveis históricos em apenas três anos.
 
Mas a resistência em "rasgar a cartilha" e começar de novo ainda é grande entre os fornecedores de menor porte, também descapitalizados para investir nas máquinas. O produtor Luiz Carlos Tasso Júnior é diretor da Canaoeste, uma associação que representa 2,8 mil fornecedores da matéria-prima espalhados em 80 municípios, entre eles os tradicionais Sertãozinho e Ribeirão Preto (SP). Ele conta que a concentração de açúcar na cana (o chamado ATR) caiu nos últimos anos na região, conhecida por reunir as melhores condições de clima e solo para a cultura. Historicamente, o desempenho médio do ATR na região era de 145 quilos por tonelada, com picos que já superaram os 160 quilos. "Na safra 2012/13, a concentração de ATR caiu a 138 quilos, número que deve se repetir em 2013/14. Não acredito que será possível retomar os níveis históricos, a não ser que haja um avanço significativo na genética da planta", afirma Tasso.



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