Votorantim centra o foco em mineração

Ao todo, a Votorantim Metais investirá em 2013, em expansões e novos projetos, algo como RS 1,5 bilhão

Sob o comando do executivo Tito Martins desde 12 de outubro, a companhia de metais de base do grupo Votorantim traça uma nova trajetória: ampliação do leque de negócios e uma atuação global como fornecedora de matérias-primas industriais, como alumina, carvão metalúrgico e concentrado de cobre. A Votorantim Metais quer ser mais que uma metalurgia de alumínio, zinco c níquel, atividade hoje com menores margens de ganhos. A nova face da holding é mais para uma companhia de mineração.

Já está ambientado no grupo da família Ermírio de Moraes, após dois meses de imersão em todos os negócios da Votorantim, entre agosto e setembro. Martins, com o expertise trazido de longa carreira na Vale, já pilota a diversificação e o novo rumo da VM de sua sala no histórico prédio da praça Ramos de Azevedo, atrás do Teatro Municipal, no Centro da capital paulista, onde o empresário Antônio Ermírio de Moraes deu expediente até se retirar do dia a dia do grupo. Mas, a partir de meados de abril, as decisões sairão do novo endereço, na zona Sul. A escolha do local foi uma das suas primeiras atribuições.

A guinada no rumo da VM abrange dois projetos robustos: um no Brasil e outro na Colômbia. No Pará, há plano para se erguer uma fábrica de alumina (matéria-prima do alumínio) de USS 3 bilhões. Na região central da Colômbia, avalia-se a abertura de uma mina de carvão metalúrgico que pode custar até USS 4 bilhões. Em ambos os casos, a VM vai buscar sócios capitalistas e estratégicos (usuários c tradings de matérias-primas) para poder realizar os parrudos investimentos.

Outro pilar dessa estratégia passa pelo Peru, país onde o grupo já investiu mais de USS 1 bilhão na exploração de zinco c tem uma carteira de projetos de zinco e cobre para o mesmo tanto ou mais de dinheiro. O novo caminho fortalece a mineração de concentrado de zinco c amplia a atuação cm projetos de cobre. Essa tarefa está a cargo da peruana Milpo, adquirida cm 2010.

A VM é o segundo maior negócio, em receita, do grupo Votorantim, logo atrás de cimento. Mas, nos dois últimos anos, os resultados não foram tão brilhantes. Ao contrário, no ano passado amargou prejuízo de R$ 1,75 bilhão, fruto dc problemas operacionais, queda de vendas, aumento de custos de energia e da retração dos preços do zinco, alumínio e níquel (12%/S% e 24%) no mercado internacional. A receita alcançou R$ 9,2 bilhões, com queda de 37% no resultado operacional (Ebitda).

"O Peru é uma oportunidade muito positiva e a Milpo vai ter papel voltado para o mercado de concentrado de minério, onde as margens tendem a ser melhores", disse Martins. No Peru, a VM passou a ter uma plataforma de exploração de polimetálicos, encaixada dentro da nova estratégia.

O novo perfil ganhou contornos mais consistentes cm 2011 e foram alinhavados cm 2012. Logo após o grupo vender sua participação na Usiminas, Raul Calfat, presidente da Votorantim Industrial, dona da VM, disse que a mineração teria maior relevância no futuro da empresa.

No Peru, a partida cm cobre se dará com o projeto Magistral, que terá produção de 40 mil toneladas de metal contido em concentrado. Atualmente, 20 mil toneladas do metal já são extraídas na forma dc concentrado no país. Há outros projetos no portfólio da Milpo. Martins não descarta aquisições. "No médio prazo, o cobre vai ser o metal da vez", disse ao Valor. A VM também faz programas de pesquisas geológicas no Chile c Argentina, além do Brasil.

Na área do alumínio, o novo grande salto da companhia deverá vir mesmo com o projeto de alumina em Rondon, no Pará, com início da produção cm 2017. A produção dc metal está limitada pela tarifa dc energia do país, inviáveis para eletrointensivos.

A empresa, no momento, realiza a última fase de estudos de viabilidade técnica e econômica c prevê dar início à implantação da unidade em 2014. Apenas neste ano, os investimentos previstos no local são de RS 300 milhões.

A operação, voltada para o mercado de exportação internacional, prevê 3 milhões de toneladas de alumina na primeira fase, com bauxita extraída de uma jazida própria. A meta é ir além: dobrar a capacidade em alguns anos. "Trata-se de um projeto muito grande, até para nós", admite Martins. Segundo ele, investidores têm se mostrado receptivos para discutir participação.

A aposta é que o preço da alumina — hoje vendida no mercado à vista na faixa de 22% do valor do alumínio na LME (bolsa de metais de Londres), ou seja, de USS 400 a USS 450 a tonelada—, se consolide nos próximos anos. Antes, a referência era de 12,5% do preço do metal. A Indonésia, um grande produtor global, aprovou regras minerais recentemente que limitam as exportações, o que pode significar oportunidade. A maior demanda, avalia Martins, deverá vir da China e do Oriente Médio.

Na mesma linha, de ser fornecera global, há o plano para se tornar grande produtora de carvão metalúrgico. Essa diversificação passa pela Colômbia, na região central do país, onde o grupo já opera a siderúrgica Acerias Paz dei Río, em Belencito. O objetivo é produz ir 3 milhões de toneladas do mineral, usado em altos-fornos de usinas de aço, em uma primeira etapa. O volume poderá ir a 10 milhões de toneladas em alguns anos, mas depende muito de fatores logísticos, principalmente de modal ferroviário.

"Estamos na fase de estudos de viabilidade para 6 milhões de toneladas a partir de 2017 e 10 milhões toneladas em 2019", disse o executivo. O principal desafio é levar o minério desde a mina, a 2,8 mil metros de altitude, até o planalto e daí até um porto para embarque em navios. Para atingir portos em Santa Marta, no mar do Caribe, o mineral terá de vencer um trajeto de cerca de 1,4 mil km. A VM conversa com o governo local para que faça a construção de uma ferrovia de 400 km na região da mina, o que facilitaria o escoamento dessa produção.

Segundo Martins, nas condições atuais, com parte do despacho por rodovia, a VM poderia transportar no máximo 6 milhões toneladas por ano. As reservas da empresa somam 400 milhões de toneladas. A Colômbia é rica em jazidas de carvão térmico, mas tem ofertas reduzidas do tipo metalúrgico.

O Brasil, que importa 100% do que consome — mais de 13 milhões de toneladas por ano —, principalmente da África do Sul, Austrália e Canadá, poderia ser um dos mercados da Votorantim.

Viabilizado o plano, a VM passa competir com Vale, Rio Tinto, Anglo American e outros gigantes nesse mercado. E, pelos preços atuais, poderia alcançar receita anual na faixa de USS 1,5 bilhão.

Sobre as operações atuais da VM, todas integradas desde o minério, Martins lembrou que já estão consolidadas. A visão é de fortalecimento, garantindo suprimento de matéria-prima, reduzindo custos e melhorando a rentabilidade, com aumento de produtos e serviços aos clientes.

Quinta maior produtora global de zinco, a VM vendeu 672 mil toneladas do metal em 2012. Líder em alumínio no Brasil, comercializou 448 mil toneladas (10% abaixo da capacidade). Em níquel, atingiu 34 mil toneladas.

No Peru, opera a metalurgia de zinco de Cajamarquilla, adquirida em 2005 e que foi duplicada anos depois para 320 mil toneladas por ano. Além dessa operação, por meio da Milpo, a companhia é detentora das minas de zinco Cicrro Lindo e El Porvenir - duplicadas no ano passado - e de dois novos projetos: Puqca e Hilarión. Ambos serão voltados para produção do metal concentrado.

No Brasil, faz ampliação da mina de Vazante (MG) e desenvolve o projeto Aripuanã (MT), previsto para 2017, para repor reservas em declínio. Além disso, estuda a jazida de Santa Maria, no Sul. No alumínio, com a mina de Barro Alto (GO), de 1 milhão de toneladas, vai garantir suprimento da fábrica de Alumínio (SP) no futuro.

Ao todo, a VM investirá em 2013, em expansões e novos projetos, algo como RS 1,5 bilhão. "Este ano, com as incertezas grandes da economia, o foco é crescimento orgânico", disse Martins. Com a maturação dos projetos, ele prevê, em três anos, que a empresa crescerá em torno de 30% cm receita e geração de caixa.

Por Ivo Ribeiro e Olivia Alonso


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