Estudo aponta manipulação em testes de emissão e consumo em carros na Europa

A ONG Transport & Environment divulga relatório com alguns truques utilizados pelas montadoras

Acredite se quiser, mas pneus lisos (slick) são cheios muito além da calibração normal para reduzir a resistência ao rolamento. Os freios são ajustados, ou, às vezes, até mesmo desligados, para reduzir o atrito. Fendas na lataria são tapadas com fita adesiva para reduzir a resistência do ar. Algumas vezes, até os espelhos retrovisores são removidos.

Estes são alguns dos truques usados pelas montadoras antes de submeter seus carros aos testes de eficiência no consumo de combustível e emissão de gases poluentes. "São vários e vários pequenos ajustes," explica Greg Archer, especialista em transporte limpo da ONG Transport & Environment, responsável pela publicação de um relatório que faz as denúncias sobre as práticas questionáveis da indústria automobilística.
 
Todos os carros vendidos na União Europeia passam por testes oficiais que medem o consumo de combustível e as emissões de gases nocivos, como o dióxido de carbono (CO2) e os óxidos de nitrogênio (NOx). Esses dados são usados pelos governos - para fundamentar suas políticas de controle ambiental e para determinar o nível de impostos cobrados de cada carro - e pelos consumidores, interessados em comprar carros mais econômicos e menos poluentes.
 
Na realidade, porém, segundo a entidade, os dados são cada vez mais enganosos, em grande parte porque as montadoras estão melhorando sua capacidade de manipulação dos testes. "Consequentemente, há um fosso crescente entre o que os motoristas conseguem de fato com seus carros e o que os testes relatam sobre a economia de combustível e as emissões," disse Archer.
 
Diferença entre oficial e real
De acordo com os números oficiais, as emissões médias de CO2 dos automóveis na União Europeia caíram de cerca de 180g/km, em 2001, para menos de 150g/km, em 2011. Em comparação, no mundo real, as emissões caíram de mais de 190g/km para 180g/km no mesmo período, de acordo com dados de um estudo realizado na Alemanha pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo, citado pelo relatório da Transport & Environment. Ou seja, os carros atuais estão no nível que os números oficiais diziam que estavam os carros fabricados em 2001, mesmo com todos os avanços tecnológicos da última década.
 
"A diferença entre os números do mundo real e os números oficiais está crescendo ano a ano," disse Archer, apontando como a diferença entre as duas cifras, de 7% em 2001, aumentou para 23% em 2011.
 
Truques legais
Segundo o relatório, para chegar aos níveis inatingíveis pelos carros reais rodando nas estradas, os fabricantes de automóveis contam com um arsenal de truques para usar durante os testes que incluem: desconectar o alternador, para que o motor não gaste potência para recarregar a bateria durante o teste; usar lubrificantes especiais que não são usados em veículos de série, a fim de reduzir o atrito; desligar todos os aparelhos elétricos, incluindo ar condicionado e rádio;
 
Segundo o relatório, contudo, não há qualquer evidência de que as montadoras estejam quebrando regras formais. "Mas elas não precisam. Os procedimentos dos testes atuais são tão frouxos que há amplas oportunidades para massagear os resultados do teste," diz a publicação. De fato, sob o sistema New European Driving Cycle, os fabricantes são livres para declarar resultados dos testes de CO2 4% abaixo dos resultados medidos. "Nós vamos ter de fechar essas brechas", diz Archer.



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