22/01/2020

África a última fronteira das Smartcities

A África continua sendo uma grande desconhecida. Sendo necessário realizar uma autocrítica em relação as nossas visões individuais e coletivas do continente, para uma correta análise dos processos que ocorrem, e dessa formar saber como as nações podem colaborar e estabelecer um relacionamento de ganho mútuo.

Embora o continente africano seja o berço da humanidade e sua história esteja intimamente ligada ao surgimento das primeiras cidades e civilizações. A historiografia foi perversa com a região, realizando um profundo salto entre os faraós do Egito aos tempos atuais, indo do auge de um dos maiores impérios do Mundo Antigo, a barbárie das guerras tribais e ditaduras post-coloniais, ignorando o florescimento de diversas outras civilizações tais como os Axumitas, o reino de Malí, a cultura Iorubá (tão marcante no continente americano desde Nova Orleans (EUA) ao Brasil, passando pela Cuba e o Haiti), ou até mesmo a expansão do mundo árabe sob o comando dos poderosos califas que chegaram a conquistar territórios europeus por mais de 800 anos.

A África é cruelmente estigmatizada pela sua cultura ancestral, pelo histórico de conquistas e invasões, pela sua geografia e até mesmo pela sua diversidade. Sua beleza natural é retratada como um mundo selvagem onde feras dominam a vastidão de um território desolado...

Em um consenso absurdo, conseguimos construir socialmente, em praticamente toda a comunidade internacional, uma visão infra-valorizada e desrespeitosa. Um paralelismo entre a África e as mazelas da própria humanidade… Como se fosse exclusividade da região a fome, o calor, a vida selvagem, a falta de infra-estrutura, as tensões sociais, os golpes de estado...

Porém desde a última década a África vem passando por diversas transformações, sejam as mudanças políticas nos países muçulmanos (Primavera Árabe), ao crescimento econômico da África Subsaariana.  Registrando profundas mudanças demográficas, com um crescente êxodo rural e conseqüente processo de urbanização, modificações no sistema produtivo e inserção gradual nas cadeias de produção global. Atualmente o continente é um território em processo de expansão financeira e destino de importantes fluxos de investimentos. Mas não todos os países participam desse processo ou exploram o potencial do mesmo, em uma época onde o sistema financeiro internacional precisa de espaço para ampliar suas atividades, mercado e produção.

Embora os países do continente mantenham uma relação histórica e cultural com diversos países do mundo, a África continua sendo uma grande desconhecida. Sendo necessário realizar uma autocrítica em relação as nossas visões individuais e coletivas do continente, para uma correta análise dos processos que ocorrem, e dessa formar saber como as nações podem colaborar e estabelecer um relacionamento de ganho mútuo.

Cada nação africana possuí suas próprias características e singularidades, além de demandas específicas, porém existem processos presentes em praticamente todos os países, tais como o êxodo rural e o adensamento das regiões urbanas. Assim como a crescente integração econômica da região e projetos multilaterais com o objetivo de fomentar o desenvolvimento.

Essas demandas populacionais e rápido crescimento urbano e econômico, promoveu uma busca continua para organizar e planejar as dinâmicas inerentes das cidades e dos espaços urbanos. Como conseqüência deste processo, a África possui diferentes projetos de Smartcities (cidades inteligentes) que buscam fomentar o desenvolvimento e organizar as aglomerações populacionais existentes.

Assim como ocorre nas nações latinas, as cidades africanas possuem demandas que vão desde a geração de uma infra-estrutura básica (porém planejada) à constituição de hubs de desenvolvimento e pólos de referência no continente, se adaptando ao mesmo tempo aos padrões internacionais e problemáticas do Sistema Internacional. Isso significa que as cidades africanas devem se desenvolver, mas não a qualquer custo! Ao menos se desejam participar dos fluxos internacionais e receber investimentos produtivos em lugar de especulativos. Questões como a sustentabilidade, desigualdade, meio ambiente e direitos humanos devem estar refletidos em seus projetos e em suas políticas, e dessa forma evitar futuros problemas decorrentes de um processo de expansão e desenvolvimento rápido e desorganizado.

Conscientes dessa necessidade, muitos países africanos estão desenvolvendo projetos de cidades inteligentes e modificando os processos e dinâmicas que não se adaptam a essa visão de futuro. A África está aos poucos racionalizando seu próprio desenvolvimento e suas próprias dinâmicas, porém integrando suas especificidades à realidade da comunidade internacional. Promovendo não somente melhorias ou instalação de serviços e infra-estrutura, mas buscando fomentar um “desenvolvimento inteligente” a fim de não cometer os mesmos erros que outras nações. Neste sentindo as próprias deficiências existentes na África se transformam em um ponto positivo, já que muitas nações estão partindo de uma base primária, e em lugar de “refazer” as coisas, elas devem somente planejar desde um ponto inicial como realizar as mesmas.

Atualmente praticamente todos os países da África possuem um projeto de Smarticity em andamento ou em planejamento. Sendo os mais importantes:

- Konza Technology City: projeto em fase de execução na Quênia, cujo orçamento supera os 388 milhões de dólares e busca gerar um pólo tecnológico entre a capital Nairobi e a cidade portuária de Mombasa.

- Plano de Desenvolvimento Nacional e cidades sustentáveis: em execução na Tunísia, o plano é uma colaboração entre atores locais, privados e órgãos multilaterais.  O objetivo é promover o desenvolvimento do país, reduzir os fluxos migratórios e gerar um player e sócio importante para as nações do Mediterrâneo.

- Eko Atlantic City e Centenary City: Ambos os projetos estão em execução na Nigéria. O país optou por um modelo de hubs de desenvolvimento semelhantes aos pólos tecnológicos de algumas cidades brasileiras, e que estes sejam a base para o desenvolvimento das grandes urbes de uma das principais economias do continente.  O orçamento supera os 50 bilhões de dólares.

- Cairo Capital: Projeto em execução, pretende gerar um novo departamento urbano o qual será o novo pólo administrativo, financeiro e político do Egito, movimentando todos os órgãos públicos para o mesmo e gerando um centro financeiro e tecnológico, inspirando em La Defense de Paris.  Uma espécie de “Brasília” porém integrada a macro-região do atual Cairo.

- Cidade do Cabo: Projeto em Execução na África do Sul que diverge de muitos existentes no continente já que busca desenvolver para Smartcity uma cidade já existente e com dinâmicas políticas, sociais e econômicas já existentes, sendo um dos mais parecidos a projetos existentes no Brasil.

- Kigali Innovation City: Projeto em desenvolvimento, localizado na Ruanda, que busca fomentar a geração de um pólo de inovação e tecnologia. O país entrou na rota de investimentos estrangeiros e está se consolidando política e socialmente.

Além dos citados, existem outros projetos importantes tais como o de Lagos (Nigéria), Dakar (Senegal), Casablanca (Marrocos) entre outros... E projetos nacionais e multilaterais, tais como o trem bala construído em Marrocos, ou a implementação da rede de telecomunicações e ferrovias africanas, o setor de cidades inteligentes e inovação registrou no continente um crescimento de 57% entre 2017-18, reforçando a tendência de que a África será o novo centro de expansão financeira do século.

O Brasil e a América Latina podem se beneficiar desse processo por existir fortes sinergias sejam estas culturais, sociais, políticas, econômicas e tecnológicas, porém a instabilidade na região e a redução dos investimentos internacionais (no caso do Brasil a redução da atuação internacional do BNDES) dificultam a penetração de empresas do Brasil em projetos na África e participação do país nos fluxos de investimento.

Para obter maiores informações das smartcities africanas, recomendo o site africansmarticites.info ou o informe realizado pela Casa África (Espanha) em participação com a União Européia, disponível em português e espanhol.

As informações e opiniões veiculadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a opinião do Grupo CIMM.

Wesley Sa Teles Guerra

Perfil do autor

Wesley Sa Teles Guerra, PhD International Relations Researcher, Master Social Policy & Migrations, MBA Global Partnership, MBA Marketing. Director of CERES (Center of International Relations Studies). Specialist in development and innovation. IT specialist.


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