20/09/2019

Minha empresa cresceu e agora?

O crescimento é o desejo de todo empresário, mas ele esconde armadilhas que precisam ser reconhecidas, principalmente quando o crescimento não é planejado.

Todo empresário vai para a cama, acorda pela manhã e vai para o trabalho pensando em como fazer sua empresa crescer. Quando o crescimento vem é muito excitante e se tem a sensação de que o trabalho duro e tantos esforços deram resultado.

Em uma situação de crescimento rápido e inesperado, a operação demanda muito dos sócios, diretores e gestores. A operação é algo viciante, muitos problemas acontecendo ao mesmo tempo e parece que somente os sócios, diretores e gestores são capazes de resolver, de antever e perceber onde estão as soluções. Essa demanda por soluções e orientações os faz pensar no quanto são importantes e preparados. Esse stress os alimenta, dá prazer e reforça a ideia de que são mesmo personagens da Marvel.

No entanto, parece um paradoxo, mas em muitos casos quando a empresa cresce a preocupação aumenta e as vezes não no primeiro momento. Isso ocorre principalmente em situações onde crescimento vem em uma velocidade e uma proporção inesperada. Em muitos casos se vê um crescimento de vendas, produção, entregas, movimentações de estoque, colaboradores novos, mas tudo isso não é materializado em aumento de resultados. Geralmente só se percebe isso ao longo dos semestres ou mesmo ao final do(s) ano(s).

O crescimento nestas condições, velocidade e proporção inesperada, acarreta vários problemas que precisam ser rapidamente atacados para que o crescimento se reflita nos resultados da empresa.

A falta de um planejamento estratégico e financeiro faz com que o crescimento seja um fator externo, a empresa não tem qualquer controle sobre ele.

É preciso ficar atento a alguns pontos importantes e decisivos dos quais elegemos 7:

1. Entender a demanda

Quando as vendas aumentam rapidamente é preciso entender o que está acontecendo, deveríamos saber se um crescimento geral ou são algumas regiões ou algum grupo de clientes que estão puxando as vendas, quais produtos estão carregando o crescimento. Pode ser um concorrente que saiu do mercado, ou alguns clientes que estão exportando ou pode ser o crescimento específico do mercado, por exemplo. Seja lá qual for a razão é preciso conhecê-la, identificar se é um movimento temporário ou algo que se sustenta. Para essa tarefa é preciso informação, juntar os dados e torturá-los até que eles nos deem respostas.

2. Modelo de gestão

Os diretores e gestores têm realmente uma visão privilegiada e cabe a eles levantar a cabeça e entender o que está acontecendo com o mercado e se preparar para ele. A operação vai seduzir com sua adrenalina e seu encantamento de solucionar problemas, mas é preciso administrar isso, pois os diretores e gestores precisam conduzir a empresa. É preciso formar um time de gestores e colaboradores que possam tomar decisões simples do dia a dia, mesmo porque há situações em que a demanda por soluções é tão grande e as decisões são tão concentradas que são os diretores que abortam ou reduzem a velocidade do crescimento por estarem extenuados.

3. Gestão financeira

Conhecer os números é essencial e a gestão financeira precisa informá-los de forma padronizada e periódica. É preciso saber qual é a lucratividade da empresa, qual a demanda e o custo de capital de giro, quais opções tributárias podem ser adotadas. Quando isso não acontece é como se estivéssemos em um voo cego, não sabemos o que vai acontecer com certeza. Nesta situação de crescimento é comum a ilusão financeira, pois o volume de recursos que entram no caixa aumentou muito, o contas a receber também e se tem a falsa sensação que tudo isso se traduz em resultados, mas nem sempre é assim.

4. Capital de Giro

Crescimento sempre vai demandar mais capital de giro, a empresa terá que adquirir mais matéria prima, mais colaboradores, mais despesas. É inevitável. Nestes momentos de pressão as decisões erradas são comuns e por isso entender a potência da demanda é fundamental. O ideal seria ter planejado de onde viriam os recursos e a qual custo. A falta de capital de giro pode colocar a empresa em uma situação de endividamento indesejável, consumir um pedaço maior da lucratividade ou mesmo limitar o crescimento.

5. Fornecedores

Nem sempre os fornecedores tradicionais, aqueles que a empresa conhece e trabalha há muitos anos conseguirá atender a necessidade de curto prazo porque a capacidade deles pode ser limitada. Desenvolver fornecedores confiáveis, com qualidade e preço justo não é fácil nem rápido. A empresa deve ter sempre alguns fornecedores desenvolvidos para estas situações mesmo que as compras não sejam regulares. São eles que irão permitir que a empresa atenda a uma demanda crescente.

6. Vendas X Resultados

Vendas é a coisa mais importante da empresa, mas acredite, vendas não é tudo. Vender é primordial, mas fazê-lo sem margem, com prazo fora do mercado, com custos adicionais não se traduz em resultados. Ao final de um período, depois de tanto esforço e trabalho nada é mais frustrante que descobrir que não houve melhora nos resultados, ou pior, que ele diminuiu.

7. Produtividade

É quase inevitável neste tipo de crescimento que ele gere a desorganização da produção, a demanda vem rápida e exige decisões na mesma velocidade e nem sempre são as melhores. As empresas dobram turnos, quando poderiam não o fazer, contratam colaboradores que não são devidamente treinados e que comprometem a produtividade e, em alguns casos, mal conhecem a cultura da empresa. Essa situação é válida tanto para a indústria quanto para as empresas de serviço. Em muitas situações surgem lideranças informais que criam um degrau maior na comunicação empresarial. É preciso formar uma equipe técnica e preparada para pensar inovação, como fazer mais rápido, mais simples ao menor custo na qualidade que a empresa definir.

A conclusão é que mesmo em situações de crescimento as empresas ficam expostas a muitos riscos que podem comprometer seriamente sua capacidade de entrega, sua reputação e sua saúde financeira. Crescer é ótimo, afinal é o que todo empresário deseja, mas é preciso que esse crescimento tenha alguma coordenação, seja apoiado em uma estratégia de crescimento.

As empresas deveriam desenhar seu futuro, planejar seu crescimento para que pudessem conduzir o processo com as condições que ela estabeleceu. O planejamento estratégico e financeiro vai alcançar todos esses fatores e preparar a empresa para o desafio. E mesmo considerando que o planejamento não vai acertar 100%, ainda assim é muito mais saudável que lidar com problemas pequenos que consomem a capacidade dos sócios, diretores e gestores de conduzir a empresa, com a necessidade de tomar decisões sem informações.

As informações e opiniões veiculadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam a opinião do Grupo CIMM.

Moneyus Consultoria Financeira

Perfil do autor

Carlos A Dariani Economista, Diretor Executivo da Moneyus Consultoria Financeira especializada em planejamento financeiro, planejamento estratégico, business plan e valuation


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