Autopeça brasileira volta aos EUA

Barreiras argentinas motivam novas parcerias com a América do Norte

Gerente de exportações da Mangels, Paulo Cicconi esteve duas vezes nos Estados Unidos neste ano. O motivo: oferecer a montadoras americanas toda a linha de rodas produzidas na fábrica do grupo em Três Corações, no Sul de Minas Gerais.

No passado, quando as exportações aos Estados Unidos eram mais expressivas, a Mangels chegou a ter dois centros de distribuição no país para abastecer o mercado de reposição local.
 
Contudo, com a perda de competitividade decorrente da valorização do real e a estratégia de dicar sua capacidade ao fornecimento direto a montadoras, a Mangels decidiu encerrar as operações e deixou o mercado automobilístico americano, que até 2008 era o maior do mundo.
 
Desde então, a conjuntura mudou e as vendas de carros nos Estados Unidos estão agora em franco crescimento, ao mesmo tempo em que o dólar mostra uma reação. Paralelamente, muitos concorrentes da Mangels não resistiram à derrocada após a crise financeira e fecharam as portas, o que abriu espaço para novos grupos dispostos a abastecer esse mercado.
 
O ambiente, portanto, é propício para a volta da fabricante de rodas aos Estados Unidos. "Ainda existe uma concorrência forte de fabricantes mexicanos. Mas, pelo produto de alta performance que oferecemos, temos condições de concorrer com eles", afirma o executivo.
 
A história da Mangels repete uma cena que tem se tornado comum em meio a um cenário ainda negativo para a indústria automobilística brasileira no campo do comércio exterior.
 
Com as barreiras à entrada de produtos na Argentina - principal parceiro comercial do Brasil no setor - e a crise europeia, a retomada americana passou a ser a válvula de escape para as exportações da indústria de autopeças.
 
Dados do governo mostram que, no primeiro semestre, os embarques de componentes automotivos aos Estados Unidos subiram, em valores, 5% na comparação anual - na contramão da queda de 2,8% nas exportações totais (somando todos os países).
 
Também há uma melhora nos fluxos com destino ao México, plataforma de montadoras americanas onde a compra de autopeças brasileiras chegou a US$ 600 milhões nos seis primeiros meses do ano, com crescimento de 14,6%.
 
Tal desempenho tem como pano de fundo a recuperação no consumo de veículos no mercado americano, o segundo maior do mundo, atrás da China. Segundo balanço da Jato Dynamics, as vendas de carros nos Estados Unidos subiram 13,4% e chegaram perto de 6 milhões de unidades até maio.
 
Colocando na conta os demais segmentos da indústria automotiva - veículos, chassis, carrocerias, implementos rodoviários, máquinas agrícolas e máquinas rodoviárias -, as exportações para os Estados Unidos e o México mostram crescimento de 8,7% e 1,4%, respectivamente.
 
Quando se olha para determinados mercados na América do Sul, as variações são ainda mais significativas. O Brasil, por exemplo, embarcou no primeiro semestre mais de 12 mil veículos - alta de 69,6% - para cinco países andinos: Peru, Equador, Colômbia, Venezuela e Bolívia.
 
São regiões onde o consumo vêm mostrando forte expansão e existe grande dependência de importações - caso da Colômbia, país no qual o mercado de veículos praticamente dobrou em dois anos: passando de 178 mil para 350 mil unidades de 2009 para 2011.
 
A indústria de autopeças também se aproveita desse movimento e consegue, neste ano, expandir em 14,1% as vendas a mercados andinos. "Houve nesses países um aumento da frota de veículos brasileiros, que agora precisam dos componentes de reposição, também feitos no Brasil", diz Nicolau Saad Filho, diretor comercial da General Products, empresa de trading que faz exportações de peças.
 
Cansado com os atrasos, que chegaram a superar 30 dias, na liberação de componentes automotivos embarcados para a Argentina, Ronaldo Teffeha, vice-presidente da Dayco no mercado de reposição, diz que passou a explorar mais agressivamente outros mercados em crescimento na região, principalmente Venezuela, Colômbia e Chile.
 
"É o que todas as empresas estão fazendo ou deveriam fazer. A relação entre Brasil e Argentina nunca foi equilibrada e a cada época tem uma história nova", comenta o executivo, ao abordar os desequilíbrios nas transações comerciais dos dois países.
 
Luis Afonso Pasquotto, presidente da Cummins na América do Sul, diz que as exportações de filtros automotivos e geradores de energia a países andinos são tradicionalmente maiores do que para a Argentina, o que não acontece no caso dos motores - principal negócio do grupo. "No ano passado, nossas vendas de filtros no Chile, Colômbia, Peru, Equador e Venezuela, somadas, foram mais de cinco vezes maiores do que na Argentina", conta.
 
Por Eduardo Laguna/Valor Econômico
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